Árvore de Ohara – Volume IV: Durarara!!

Olá! Sejam bem-vindos novamente à Árvore de Ohara. Este volume será um pouco diferente dos anteriores. Hoje, sairemos um pouco do ambiente calmo e empoeirado da nossa biblioteca e passaremos por ruas movimentadas e com tipos de pessoas bem intrigantes, com múltiplas histórias acontecendo ao mesmo tempo, brigas de gangues, amores doentios, placas de trânsito voando. E, talvez, se tivermos sorte, até consigamos ver alguma criatura sobrenatural andando à toda em sua moto.

É claro que o tema de hoje não podia ser outro se não Durarara, anime de 2010 baseado nas light novels de Ryohgo Narita, mesmo autor de Baccano. Esse é um anime cheio de surpresas a cada episódio, e o ritmo acelerado dele pode fazer com que muitos pequenos detalhes acabem passando meio batidos. Os mais marcantes são a série de referências a outros animes. Algumas são incrivelmente óbvias, mas algumas são realmente chocantes!

As primeiras brincadeiras são feitas no nome dos personagens. Mikado Ryuugamine, por exemplo, significa mais ou menos “imperador do Pico do Dragão” (se bem que, à medida que o anime avança, esse nome começa a fazer mais sentido). Em oposição a isso, Kida significa ”vassalo correto”. O de Izaya, por sua vez, significa “aquele que olha por sobre a multidão”, além de ser uma referência à figura bíblica de Isaías, o maior profeta do Antigo Testamento (outra vez, “conhecimento é poder”). Talvez o mais irônico, porém, seja mesmo o de Shizuo. O significado do seu nome completo é justamente “homem sereno, ilha pacífica”. Da mesma forma que o de Mikado, porém, talvez esse nome não represente o estado inicial dele na história, mas sim o que ele gostaria de ser.

O sobrenome de Celty, Sturluson, vem de Snorri Sturluson, poeta e historiador islandês que viveu de 1149 até 1241. E seu primeiro nome é referência à sua origem, nos mitos celtas. A origem mais legal na minha opinião, porém, é a dos nomes que citam outros escritores de light novels da Dengeki Bunko (mesma publicação de Durarara, na ativa desde 1993, e que já publicou mais de 2000 volumes de light novels): Kyohei Kadota (Kadono Kouhei – Boogiepop), Walker Yumasaki (Okayu Masaki, Bokusatsu Tenshi Dokuro-chan), Erika Karisawa (Arisawa Mamizu, Infinity Zero e Inukami, e Nakamura Erika, Double Bird) e Saburo Togusa (Watase Souichiro, Onmyo no Miyako – se bem que essa me pareceu um pouquinho obscura, indeed).

Se formos pensar bem, Durarara é uma história quase sem protagonista. Aliás, é mais uma série de histórias que se cruzam do que uma história central. Então, qual é o elemento onipresente? O lugar. Ikebukuro é o grande palco onde tudo se desenrola. Trata-se de um distrito localizado em Toshima, Tóquio. E, como é bem retratado no anime, é muito movimentado, com uma intensa vida comercial, muitas lojas enormes de departamentos, restaurantes e opções de entretenimento.  O que torna tudo mais interessante é a perfeição com a qual as locações foram retratadas. Vocês podem ver, nessas fotos, que cada mínimo detalhe foi transportado para o cenário (inclusive uma das minhas fontes de pesquisa menciona que até as máquinas de refrigerante que o Shizuo saiu jogando a torto e direito por aí existem de verdade). E isso acaba sendo uma das características mais marcantes e mais geniais: tudo parece tão real que você quase espera uma dullahan passar de moto por você. E isso faz com que o público se identifique ainda mais com a história.

E, com isso, chegamos à parte sobrenatural da história, representada pela Celty, uma dullahan. Elas fazem parte da mitologia celta, e também são chamadas de Gan Ceann (“sem-cabeça”, em gaélico).  Na história original, são usualmente vistos cavalgando um cavalo negro e carregando sua cabeça debaixo do braço. Os olhos dessa cabeça são grandes e se movem sem controle, como moscas. Além disso, possui um sorriso deformado que toca os dois lados da cabeça. A carne dessa cabeça parece ter a cor e consistência de queijo mofado, e a arma do dullahan é, na verdade, um chicote feito com a espinha de um cadáver humano. Dullahans são, de certa forma, são como anjos da morte, e quando um deles pára de cavalgar, é quando uma pessoa está prestes a morrer. A criatura chama o nome da pessoa, e quando isso acontece, a vítima perece imediatamente.  Não há forma de bloquear o caminho de um dullahan: todas as trancas e portões se abrem por conta própria quando ele se aproxima. E também não gostam de ser observados, e costumam punir aqueles que o fazem jogando sangue neles (frequentemente um sinal de que eles serão os próximos a morrer) ou arrancando seus olhos com seu chicote.  Dullahans originaram a lenda do “cavaleiro sem cabeça” (é provável que muitos de vocês tenham visto o filme “Sleepy Hollow – A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”, com Johnny Depp e Christina Ricci, e se lembrem da representação do cavaleiro).

Em um episódio, Izaya menciona que, talvez, dullahans sejam outra forma de enxergar uma outra entidade mitológica. Trata-se das valquírias, entidades da mitologia nórdica cujo nome significa “aquelas que escolhem os mortos”. Trata-se de um exército de deidades femininas que decidem quem morrerá em batalha, e escolhem metade desses mortos para levá-los ao Valhalla (“salão dos mortos”,um grande salão localizado em Asgard, o reino dos deuses). Esses guerreiros caídos se tornam Einherjar (literalmente, “lutadores solitários”), onde se prepararão para os eventos do Ragnarök (que significa “destino final dos deuses”, um enorme evento no fim dos tempos e que, segundo profecias, resultará em muitas mortes e catástrofes, mas após a qual fará o mundo renascer fértil e renovado). O interessante é que um dos primeiros poetas a mencionar os Einherjar em suas obras foi justamente Snorri Sturluson. Sim, ele mesmo, de quem falamos há algum tempo atrás quando explicávamos as origens dos nomes. Imagino que isso faça sentido para a história, porque boa parte dela é narrada do ponto de vista da Celty. Ou seja, é como se ela fosse uma contadora de histórias, exatamente como o poeta com o seu sobrenome.

Claro, a Celty é uma versão bem mais bonitinha e kawaii de um espírito relacionado à morte, mas pessoalmente eu gostei muito dessa outra forma de vê-la. E é interessante notar o fato de que, mesmo sendo a criatura sobrenatural por excelência da série, ela é muito mais humana do que outros personagens: gosta de filmes, TV, conversar na internet, tem medo de aliens e fica apavorada com coisas como as histórias do fim do mundo em 2012. Esse é um contraste que pode ser percebido em quase todo o elenco: naturalidade, normalidade, humanidade são conceitos muito relativos. E para mim, esse é um dos charmes de Durarara.

Como foi dito no começo, a série de referências a outros animes é enorme. A maior parte delas cita Baccano (outro anime genial, com uma narrativa num ritmo ainda mais alucinante do que o de Durarara), e os que viram com certeza vão se lembrar de uma cena no episódio 12, em que ninguém menos do que Isaac e Miria, dois dos personagens mais carismáticos de Baccano, fazem uma participação especial. Outra bem interessante é que “Baccano!” é a senha de entrada no site dos Dollars (e alguns sites reais, feitos para simular o site dos Dollars, tem a mesma senha, também. Ou seja, se você se deparar com um desses, poderá visitá-lo e se sentir realmente o membro de uma color gang – bem, no caso, de uma colorless gang, mas podemos considerar o mesmo princípio xD).

Outras referências são menos evidentes.  Em algumas cenas focando telões, por exemplo, é possível perceber cenas de Baccano. Pôsteres de cinema, cartazes, aparições de personagens semelhantes (talvez aí seja um pouco de achismo meu, mas para mim o Kida é extremamente parecido com o Firo. E Shizuo se parece com o Graham Spector ou com o Ladd Russo… sem falar do Walker e da Erika, praticamente o Isaac e a Miria de Durarara, e que inclusive tem algumas cenas idênticas a cenas deles) e por aí vai. Além do mais, há sinais fortes de que Baccano e Durarara se passam no mesmo universo, a princípio pela própria aparição de Isaac e Miria. Outro sinal disso é o de que a Nebula, a empresa que construiu o Flying Pussyfoot (o trem no qual a maior parte do enredo de Baccano se desenrola) é a empresa que tenta tomar a Yagiri Farmacêutica, por exemplo.

Outros animes, mangás e novels são citados também (eis a magia de ter personagens otakus na trama! xD), entre eles Toradora, Shakugan no Shana, Axis Powers Hetalia, Kuroshitsuji, Darker than Black, Jigoku Shoujo, Ladies versus Butlers, Le Portrait de Petit Cossette, Spice and Wolf, Bokusatsu Tenshi Dokuro-chan, To Aru Majutsu no Index, Sora no Woto e por aí vai. Alguns aparecem de forma muito rápida, em action figures, máquinas de gashapons, frases, gestos de personagens (em especial Walker e Erika), cartazes, novels. E a maior parte deles são citações a outras publicações da Dengeki Bunko.

(créditos ao Seiji por ter encontrado a última imagem. ;D)

Considerações finais: Durarara traz uma série de citações e referências inesperadas, sem dúvida. Junte isso a um universo ao mesmo tempo muito realista e completamente fantástico, um ritmo muito acelerado, personagens que surpreendem a cada segundo, e você terá uma obra-prima nas mãos. Sei que esse volume acabou ficando mezzo-pesquisa-mezzo-review, mas espero que entendam que muita coisa é menos óbvia e mais especulativa. E, de qualquer forma, sintam-se à vontade para opinar, acrescentar, criticar. Afinal de contas, é exatamente isso que eu espero de vocês, babies! ;D Mais uma vez, obrigada pela atenção, beijos a todos e até a próxima!

P.S.1: e lá estava eu, no meu cubículo, vigiando o teto para ele não cair e ouvindo o cast de Lucky Star, quando eu ouço uma menção à minha humilde coluna! De verdade, muito obrigada por isso! *-* É realmente muito bom saber que vocês estão gostando, e isso me motiva a sempre tentar fazer um trabalho cada vez melhor e mais à altura de vocês! ^^

P.S.2: vou lançar aqui um desafio a vocês. Basicamente, a idéia é ver quem conseguirá adivinhar o tema da próxima Árvore de Ohara. Para isso, vou deixar um enigma aqui, relacionado a esse tema.

E o enigma dessa semana é até bem simples: Cu Chulainn, Medea, Medusa, Sasaki Kojirou.O que esses quatro termos tem em comum?

A pessoa que souber a resposta vai matar qual é o próximo tema fácil. ;D

P.S.3: Gostaria, também, de pedir desculpas pelo atraso. Essa coluna deveria ter saído na semana passada, mas eu estava às voltas com meu pré-relatório de iniciação científica (vida acadêmica, por que me trollas? Ç_Ç). Por isso, não pude nem sonhar em escrever. Isso pode acontecer outras vezes, porque logo terei provas outra vez, e vou começar estágio por esses dias… mas tenham certeza de que eu vou me esforçar pra continuar trazendo textos toda sexta-feira. Então… até a próxima! ;D

 

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  1. nunca li uma materia tão boa sobre este anime que pra mim e epico
    se eu fizer uma lista “EU RECOMENDO ISTO” ele vai estar la apos baccano que e uma das series mais freneticas que ja vi
    grande materia e valeu

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