Árvore de Ohara ESPECIAL: A história por trás das histórias (Parte I)

 

Olá. Depois de muitas semanas de ausência e distância, finalmente voltamos a visitar a nossa boa e velha biblioteca. E, desta vez, o volume escolhido é realmente especial. Falamos de alguns animes neste espaço, e todo o site é construído com base nessa temática. E, daí, foram todos os gêneros possíveis: de ação a romance, de suspense a drama, de shounens de garotos de borracha e shoujos de meninas se transformando em heroínas de roupas coloridas até animes assustadores envolvendo yanderes, maldições, pregos e coceiras no pescoço… Mas nunca pensamos em como tudo isso começou. Por isso, essa pequena série vai se dedicar a falar um pouco sobre os primórdios da indústria de anime/mangá no mundo, como surgiram as primeiras histórias, como foi a aceitação delas… Então, hoje começaremos a nossa jornada por essa história, e nosso ponto de partida está há muitas, muitas décadas atrás…

OS PRIMÓRDIOS:  SÉCULO XIX – WWII

O primeiro mangá surgiu no começo do século XIX (1814). Era o chamado Hokusai manga, e consistia numa série de esboços de um artista japonês chamado (duh) Hokusai. Cada esboço nesse mangá é baseado em diferentes tópicos, incluindo deuses, monstros, montanhas, flores e pássaros, e tinham muito pouca ou nenhuma relação entre si. Nesse estágio, as imagens que eram vistas nessa obra não são representativas do estilo atual de mangá. O estilo do Hokusai era o dos esboços, e levou muito tempo até que o estilo que vemos hoje, com influência do mundo ocidental. Foi o início da era do Ponchi-e, em que artistas japoneses começaram a se concentrar em usar mais cores, formas e arte-final. Essa era veio juntamente com o advento dos filmes de animação, e no século XX nós vimos o surgimentos dos primeiros animes.

Hokusai mangá

O primeiro anime com áudio foi lançado em 1933, e se chamava Chikara to Onna no Yo no Naka (ou “O Mundo de Poder e Mulheres LOL). Era um curta-metragem produzido por Kenzo Masaoka, que contava a história de um homem, pai de quatro crianças, com uma esposa de 2 metros de altura e 120 quilos. Ele começa a se envolver com uma datilografista da sua empresa e acidentalmente conta para a esposa falando enquanto dorme. Ela, então, vai até a empresa para confrontar os dois.  Infelizmente, não há mais cópias desse filme disponíveis, o que é realmente uma pena.

Chikara to Onna no Yo no Naka

Avançando um pouco, chegamos à 2ª Guerra Mundial. Esse conflito mobilizou todo o Japão, obviamente, inclusive os artistas do país. Aqueles que não cooperavam eram punidos com detenção, banimento (proibição de escrever) e ostracismo social, enquanto os que se retratavam eram recompensados com programas de reabilitação e suporte da comunidade. Isso fez com que muitos artistas que habitualmente criticavam o governo darem meia-volta e oferecerem suporte incondicional aos militares.

Com isso, na década de 40, foram formadas muitas organizações de artistas e cartunistas. Entre elas estavan a Shin Nippon Mangaka Kyokai (Associação de Novos Cartunistas do Japão) e a Shin Mangaha Shudan (Grupo de Facção de Novos Cartunistas). Durante esse tempo, o governo usou os poucos artistas que não haviam sido banidos do trabalho (ou que não estavam no exército) para produzirem propaganda militar, de forma a influenciar as pessoas contra as nações inimigas. O maior exemplo disso são os filmes Momotaro no Umiwashi (“Momotaro, águias marinhas”) e sua sequência, Momotaro: Umi no Shinpei (algo como “Momotaro, Marinheiros Sagrados”), que foi o primeiro longa-metragem de animação do Japão. O primeiro conta a história de uma unidade naval com o humano Momotaro (“Garoto-pêssego”, um personagem do folclore japonês) e vários animais representando as raças do Extremo Oriente lutando juntas por uma causa comum. Numa dramatização do ataque a Pearl Harbor, esta força ataca os demônios na ilha de Onigashima (representando os americanos e ingleses, demonizados na propaganda japonesa), e inclusive usa imagens reais do ataque. A sequência, por sua vez, conta a história da manobra surpresa na ilha Sulawesi, descrevendo a ação de tropas de paraquedistas. O filme também descreve a “libertação da Ásia” que o governo japonês proclamava naquela época. Há algumas cenas musicais nesse filme, inclusive uma em que os soldados japoneses ensinam os animais locais a falar.

Momotaro: Umi no Shinpei

O que chama a atenção nesses dois filmes é que eles foram financiados pelo Ministério Naval do Japão, numa óbvia propaganda de guerra. Muitos países usavam o mesmo recurso: esses filmes, obviamente, também passavam idéias de esperança e sonhos, já que eram destinados às crianças, mas não dá para simplesmente ignorar que eles eram também recursos para exaltar o regime e as ações militares da época.  Aliás, essa é uma faceta um pouco triste da arte em geral: não apenas o mangá, mas em praticamente todos os países, as artes plásticas, a música, o cinema, enfim, todas as formas de arte foram usadas como propaganda a favor de regimes autoritários e arbitrariedades.

O PÓS-GUERRA E AS PRIMEIRAS GRANDES OBRAS

Com o fim da guerra, houve um período de ocupação do Japão pelos Estados Unidos. Com isso, a influência cultural americana se tornou muito forte no país, e é claro que também afetou a indústria de anime e mangá. Foi nessa época que surgiu o mangá moderno, entre os anos de ocupação e pós-ocupação (década de 50 e início da década de 60). Um país antes militarista e ultranacionalista agora tinha que reconstruir sua estrutura política e econômica. Juntando essa reconstrução às influências obtidas com a ocupação, começaram a surgir grandes obras, numa explosão de criatividade, envolvendo grandes artistas como Osamu Tezuka (Astro Boy) e Machiko Hasegawa (Sazae-san).

Astro Boy se tornou um sucesso rapidamente, e até hoje é muito popular (tivemos um filme novo em 2009). O mangá foi lançado entre abril de 1952 e março de 1968, com várias adaptações para a TV, sendo a primeira delas entre janeiro de 1963 e dezembro de 1966. Foi provavelmente este o responsável pelo sucesso que os animes e mangás fariam pelo mundo, depois disso. Sazae-san, por sua vez, é o anime mais longo da história, tendo sido exibido ininterruptamente por 39 ANOS ATÉ HOJE, e conquistando em torno de 25% da audiência japonesa. Essas histórias, aparentemente simples (o menino-robô defensor da Terra, as histórias da família de Sazae), são verdadeiros marcos.  O estilo de Tezuka, por exemplo, mais “cinematográfico”, mostrando detalhes da ação como em slow motion, zoom ou closes, trouxe para o mangá um dinamismo visual que foi amplamente adotado por outros mangaká. Já o foco de Hasegawa na vida cotidiana e na experiência feminina viria a, posteriormente, caracterizar o gênero shoujo de mangá.

Astro Boy

Sazae-san

Esse gênero teve a sua estréia oficial em 1969, em que um grupo de mulheres mangakás (depois chamado de “O Grupo do Ano 24” ou “Magnificent 24s” – esse nome foi dado com base no nome japonês do ano 1949, o ano de nascimento de muitas dessas artistas) realizou sua estréia na indústria de mangá. A princípio, elas lançavam obras destinadas mais a garotas e jovens mulheres, e nas décadas seguinte (a partir de 1975), o gênero continuou se desenvolvendo estilisticamente, evoluindo e adquirindo subgêneros, como romance, histórias de super-heroínas (as famigeradas “mahou shoujo”, por exemplo) e um estilo mais maduro, josei.

Em 1956, foi fundada a Toei Company por Hiroshi Okawa. Este estúdio seria responsável por alguns dos filmes, tokusatsus e animes (por meio de sua subsidiária, a Toei Animation) mais icônicos. De quais estamos falando? Dragon Ball, One Piece, Lovely Complex, Doctor Slump, Saint Seiya, Hokuto no Ken, Sailor Moon, Slam Dunk, Hana Yori Dango, Digimon, Konjiki no Gash Bell… a lista é imensa. Entre os tokusatsus, podemos citar as múltiplas temporadas de Kamen Rider, National Kid, Sekai Ninja Sen Jiraiya, Jaspion, os lives de Sailor Moon, e por aí vai. Uma curiosidade sobre esses tokusatsus é sobre a chamada “pedreira da Toei”, uma pedreira localizada na cidade de Yorii (na província de Saitama), que serviu de cenário para diversas batalhas, sendo usada até hoje (embora com menos frequência). A Toei Animation, por sua vez, tornaria-se também a escola para  Hayao Miyazaki , Isao Takahara e Yoichi Koitaba, que fundariam em 1985 o Estúdio Ghibli, e seriam responsáveis por algumas das suas maiores obras, como A Viagem de Chihiro e Túmulo dos Vagalumes, mas falaremos mais disso na segunda parte desta coluna.

Logos da Toei Animation

E, com isso, chegamos a 1961, o ano de lançamento do primeiro anime exibido regularmente na televisão. Trata-se de Otogi Manga Calendar, um anime em preto e branco consistindo de duas temporadas, a primeira lançada entre maio de 1961 e fevereiro de 1962, com 312 episódios de 3 minutos, e a segunda lançada entre junho de 1962 e julho de 1964, com 54 episódios de 5 minutos. O programa tratava de eventos históricos sob o ponto de vista de um personagem que não soubesse de “o que aconteceu nesse dia na história”, e às vezes fotografias e sequências filmadas eram usadas juntamente com as animações para explicar que evento histórico havia acontecido. Apesar de ser a primeira série regular a ser exibida na TV, porém, este não foi o primeiro anime a ser exibido: o mérito cabe a Mittsu no Hanashi (“Três Contos”), exibido em 1960. Esta foi uma antologia experimental transmitida pelo canal NHK, dividida em três partes apresentando contos de fada de trinta minutos cada.

Otogi Manga Calendar

E, a partir daí, o destaque dos animes e dos mangás no Japão só cresceu e se expandiu para o mundo cada vez mais. E é graças a isso, a esse começo, que hoje estamos aqui falando sobre esse assunto. Graças a esses primeiros mangakás, diretores e estúdios que hoje, décadas depois, nós esperamos com ansiedade por cada novo episódio, e debatemos cada novo capítulo, trocamos idéias, conhecemos novas histórias. É claro, ainda há muito a falar, e é essa a idéia. Na semana que vem, teremos a segunda parte deste especial, cobrindo a década de 70 até a atualidade, e na semana seguinte virá a terceira parte, falando da história de alguns dos grandes estúdios que fizeram isso acontecer. Bem, por hoje é só. Espero que vocês tenham gostado dessa pequena viagem no tempo, beijos a todos e até mais!

 

P.S.1: um fato que eu não posso deixar de mencionar é que,essa semana, One Piece completou 14 anos de lançamento. Quem diria… Os haters que não leiam isso, mas não dá para não admirar uma obra que, em 14 anos, manteve-se divertida, intensa e surpreendente. Eu considero Eiichiro Oda um gênio por conseguir manter um universo tão imenso como o de One Piece, criando uma história coerente sem se perder no meio dela. Se eu tivesse 0,0001% dessa capacidade, já me daria por satisfeita, aiai… Então, como eu não posso impedir meu lado fangirl de aflorar nessa data tão especial, eis aqui a minha pequena homenagem a uma das minhas obras favoritas! ;D

P.S.2: peço desculpas por ter demorado tanto para postar. Simplesmente não consegui desenvolver um dos temas ao qual eu tinha me proposto (mas que AINDA VOU TERMINAR UM DIA), e acabei demorando muito até aceitar a derrota e mudar o tema. Ultimamente está sendo bem difícil escrever por múltiplas razões, mas desta vez eu vou tentar manter novamente o ritmo.

P.S.3: é, estou publicando fora do meu dia habitual (por favor, não me odeiem por isso!!! ;_;), mas as próximas virão normalmente, na sexta-feira, como de costume.

Bem, é isso. Até a próxima, babies! ;D

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  1. Texto muito bom…

    tb acho Oda um gênio apesar de acompanhar One Piece a pouco tempo, acho incrível como ele não esquece um personagem e nenhum fato de sua história… não sou muito fã do traço dele, mas os personagens são bem construídos e tem um grande carisma, inclusive os “vilões”… mas convenhamos, não tem lógica o Luffy ter ganhado do Enel, e a saga atual do mangá, bom, sem soltar Spoiler, mas a 10km de profundidade no oceano, a pressão seria tão absurda que aquelas bolhas de revestimento não serviria pra nada. Nessas questões eu acho que o Oda viaja na maionese com batatinha, mas mesmo assim o cara é foda… Simplesmente FODA, e a saga da CP9 é a melhor, e o Usopp é o cara.

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