Árvore de Ohara – Volume V: Fate/Stay Night

I am the bone of my sword.
Steel is my body, and fire is my blood.
I have created over a thousand blades.
Unknown to death.
Nor known to life.
Have withstood pain to create many weapons.
Yet, those hands will never hold anything.
So…. as I pray… “Unlimited Blade Works.”

Tenho que dizer que esse poema me provoca arrepios cada vez que eu o ouço. Palavras intensas e fortes que, de certa forma, representam bem o anime do qual falaremos hoje, neste volume da Árvore de Ohara. Falamos, é claro, de Fate/Stay Night, obra baseada na visual novel da Type-MOON lançada em dezembro de 2006. É uma obra muito rica em referências mitológicas, além de, claro, ser um grande anime com personagens muito interessantes.

Vamos começar pelas referências mais óbvias, as identidades dos sete Servos. Archer, Lancer, Caster, Berserker, Saber, Rider e Assassin são classes representadas por espíritos de guerreiros lendários. Nem todos têm os nomes citados, mas alguns podem ser descobertos pelo nome de suas armas lendárias.

(Antes de continuar, é melhor deixar claro que falarei das identidades dos Servos de Fate/Stay Night, e não das outras novels da série Fate. Mas eles também tem histórias muito interessantes. Vocês podem encontrar um pouco mais sobre eles na wikia da Type-Moon. E, como foi confirmado o anime de Fate/Zero, adaptação da light novel que é prelúdio da série, em breve seremos apresentados a eles. ;D)

Um dos primeiros é Lancer. A real identidade dele é Cu Chulainn, guerreiro celta portador da lendária lança Gae Bolg. Ele é o grande herói do Ciclo do Ulster (um conjunto de escritos em prosa e verso sobre os heróis tradicionais do Ulaid – região que corresponde à porção oriental da Irlanda). Originalmente, seu nome era Setanta. Um dos seus grandes feitos foi, com seis anos, foi matar em legítima defesa o cão de guarda de Culann (um ferreiro) e se oferecer para tomar o lugar dele como guarda da casa (o que lhe rendeu o nome que adotaria depois – Cu Chulainn significa, literalmente, “cão de guarda de Cullan”). Ele também é conhecido pelo terrível  ríastrad, um estado de batalha em que ele se torna um monstro destruidor que não reconhece amigo ou inimigo. Foi treinado por Scáthach (outra guerreira lendária), que entregou a ele sua lança, Gae Bolg. Feita a partir de um osso do monstro marinho Coinchenn, é uma lança incrivelmente letal.

Caster, por sua vez, é Medea, uma feiticeira da mitologia grega, esposa de Jasão, sobrinha de Circe e neta do deus do sol Hélio (algumas versões apontam que ela é filha da deusa Hécate, soberana da magia, necromancia e encruzilhadas, o que explicaria seu profundo conhecimento em magia). Ela ajudou Jasão – embora, algumas vezes, por meios cruéis (matando seu próprio irmão, por exemplo) a recuperar o Velocino de Ouro e levá-lo de volta, e casou-se com ele. Representada como uma mulher cruel, fria e manipuladora (algumas lendas apontam que ela matou os próprios filhos para se vingar do marido infiel), é talvez uma das representações mais bem-feitas na série (uma vez que Caster passa por cima de tudo e de todos para conseguir o que quer, e seu Hougu, Rule Breaker – um punhal que pode quebrar qualquer tipo de promessa ou contrato, inclusive pactos entre Servos e Mestres – pode ser considerado uma materialização da traição).

O espírito lendário de Berserker é ninguém menos que Heracles (ou Hércules). Filho de Zeus e Alcmena (uma mortal), ficou conhecido na mitologia grega por sua força descomunal e sua coragem. Odiado por Hera, a enciumada esposa de Zeus, sofreu tentativas de assassinato por ela desde cedo (cobras no berço dele, por exemplo). Talvez o maior de todos os golpes da deusa tenha sido provocar nele um acesso de loucura, o que o fez matar sua esposa e filhos (o que pode ter sido a razão pela qual a sua classe seja a Berserker, com uma quantidade brutal de força, mas sem controle). Depois de cometer esse crime, ele consultou o Oráculo de Delfos, que ordenou seus famosos Doze Trabalhos para que ele pudesse se redimir. O Hougu de Berserker, God Hand (11 vidas extras), é baseado na imortalidade oferecida a Hércules pelos deuses, depois de cumprir seus doze trabalhos e se expiar de suas culpas.

Ainda dentro da mitologia grega, temos Rider, ou Medusa. Ela é uma das três Górgonas, monstros ctônicos (subterrâneos) do sexo feminino. Filha de Fórcis e Ceto (divindades marinhas), era a única mortal entre as suas irmãs, transformava em pedra qualquer um que a olhasse diretamente e tinha serpentes no lugar dos cabelos. No universo de Fate/Stay Night, o olhar petrificador dela é a causa pela qual Rider usa uma venda sobre os olhos. Um dos seus Hougu, Bellerophon (que invoca Pegasus, o cavalo alado) tem relação com a morte de Medusa: quando Perseu a decapita, Pegasus nasce de seu sangue derramado.

O espírito lendário da classe Assassin, por sua vez, não é uma figura mitológica grega, e sim uma figura histórica japonesa. Trata-se de Sasaki Kojirou, que viveu entre 1585 e 1612 e foi um dos mais famosos e habilidosos espadachins da sua época. Fundou a escola Ganyuu de kenjutsu (o nome, que significa “grande rocha“, foi dado depois que ele derrotou o mestre do seu irmão), e era especialista no uso da nodachi (uma katana longa). Devido à sua fama e à da sua escola,  foi nomeado por lorde Hosokawa Tadaoki como mestre-de-armas do feudo de Hosokawa (ao norte de Kyuushuu). Foi o maior rival de Miyamoto Musashi, e morreu lutando contra ele (numa ilha que, depois, seria batizada Ganryuujima, em sua homenagem). Uma das suas técnicas mais conhecidas foi transposta para o universo de Fate: Tsubame Gaeshi (“rasante da andorinha“), uma técnica que, de acordo com a lenda, seria capaz de cortar uma andorinha em pleno vôo (em Fate, esse é o nome da espada de Assassin, que literalmente “se multiplica” em três, atingindo o rival em todas as direções de forma que o golpe não possa ser defendido).

Faltaram, então, dois espíritos lendários. De um deles, Archer, não direi nada (sem spoilers, certo? ;D). Então, restou… claro, Saber, a representação de ninguém menos que o rei Arthur (no caso, Arturia) Pendragon. Até hoje discute-se se ele realmente existiu ou não, mas segundo as lendas, ele liderou a defesa contra os invasores saxões à Grã-Bretanha no século VI. Sua existência é cercada por mitos (o mago Merlin, apontado em alguns relatos como um druida conselheiro, a espada lendária Excalibur, a ilha mítica de Avalon, são elementos que são incorporados a relatos ditos “históricos” da Idade Média, assim como em poemas e em romances de cavalaria), e esses mitos são incorporados à Fate/Stay Night: Excalibur e Avalon são seus Hougu, o primeiro como uma espada divina com um nível altíssimo de poder, e o segundo, sua bainha, que lhe dá o poder da regeneração.

Há outros pontos de relação com a história do Rei Arthur, como a própria lenda do Santo Graal. A lenda original diz que o Graal é o cálice usado por Jesus na Última Ceia. Escritos posteriores também apontam que esse foi o recipiente que José de Arimatéia usou para recolher o sangue de Cristo em sua crucificação e o leva para a região da Grã-Bretanha. Muitas novelas de cavalaria contavam histórias sobre a busca ao Santo Graal, e mesmo obras contemporâneas ainda remetem a essas lendas (um exemplo clássico é o filme Indiana Jones e a Última Cruzada, que retrata o Graal como um cálice do qual quem beber conquistará a imortalidade). A representação dessa lenda em Fate/Stay Night, porém, é bem mais livre do que as outras referências que citamos: trata-se de um portão que leva a Akasha, um local metafísico que existe como a “força” em todas as teorias sobre dimensões. É nesse local que estão os Registros Akáshicos, que é a fonte de todos os eventos e fenômenos no universo. No hinduísmo, é a  base e essência de todas as coisas no mundo material, e o primeiro elemento material criado a partir do mundo astral (seguido por ar, fogo, água e terra) – por isso, outras culturas, inclusive o paganismo moderno, vêem Akasha como o Quinto Elemento.

Um prato cheio para esses pequenos detalhes é o Gate of Babylon, o Hougu de Gilgamesh (outro Servo, também da classe Archer – ele é o espírito de um antigo rei sumério, filho de uma deusa e um humano. Era um soberano arrogante e tirano. Depois da morte do seu amigo, Enkidu, ele se lança em uma busca falha pela imortalidade, ao final da qual percebe que sua grande obra para a posteridade seram as muralhas da cidade de Uruk, sua cidade). Esse Hougu tem o poder de conectar o mundo real a uma dimensão da qual pode disparar incontáveis armas de qualquer tipo. Qualquer arma MESMO: Vajra (um símbolo hindu que tem significados de “relâmpago” e “diamante”, e é o símbolo da divindade de Indra, deus do relâmpago), Caladbolg (a espada de Archer, cuja origem é celta; de acordo com as lendas fazia um círculo com a forma de um arco-íris quando agitada, e tinha o poder de cortar fora os topos das colinas e destruir um exército inteiro), Dáinsleif (“o legado de Dáinn”, é a espada do rei Högni – no poema germânico O Anel dos Nibelungos, é ele quem mata o herói Siegfried durante uma caçada, atingindo-o no único ponto do seu corpo onde ele é vulnerável; de acordo com o próprio, no poema sobre a batalha Hjaðningavíg (escrito por Snorri Sturluson), ela foi feita por anões e causará a morte de um homem toda vez que for portada, nunca falha em seus golpes, e as feridas provocadas por ela nunca cicatrizam), entre outros. O Unlimited Blade Works, Hougu do “outro” Archer da história, tem um mecanismo de funcionamento semelhante, embora não da mesma natureza.

Para finalizar, uma referência ao mundo real feita em Fate/Stay Night: apesar de a história se passar na cidade fictícia de Fuyuki, algumas locações  foram inspiradas em locações reais na cidade de Kobe, como a ponte e a casa de Rin.

Infelizmente, não posso falar muito de outros aspectos do universo de Fate, como as outras rotas e outras novels do mesmo universo. Mas, mesmo assim, é um assunto muito interessante. E é uma prova de que referências e citações não são nada por si só: o que as torna interessante é a forma como elas são transformadas e integradas à história, de forma a criar algo novo, original, intenso e belo. Espero que tenham gostado, beijos a todos e até o próximo volume.

P.S.1: eu tenho que pedir desculpas pela matéria dessa semana. Não pude pesquisar muito nem me aprofundar muito, porque tive uma semana um pouco corrida (aliás, só pude terminar a matéria hoje porque, graças ao fato de eu estar doente, o que me deixou em casa pela tarde de sexta-feira Ç_Ç). Tentarei compensar na próxima. E dessa vez eu não vou dar pistas porque sinto que facilitei demais na Árvore de Ohara passada ù_u. Então, é melhor vocês começarem a pensar em formas de adivinhar o tema da próxima coluna, ou punirei vocês em nome d… OH, WAIT. >3<

P.S.2: não podemos nos esquecer que temos o Dia das Mães nessa semana! Então, deixo aqui meus parabéns a todas as mães (será que tem alguma mãe que lê isso? oO), e espero que os nossos amigos que lêem essa humilde coluna comemorem essa data da forma certa e dêem muito carinho às suas respectivas progenitoras. ;D E mãe, eu sei que você provavelmente nunca vai ler isso mas, se um dia acontecer esse milagre, deixo aqui meu recado: TE AMO!!!

P.S.3 (inútil ao extremo): Cheguei à conclusão de que o Assassin é idêntico ao Gakupo, de Vocaloid. O que quer dizer que, agora, não conseguirei vê-lo sem imaginá-lo cantando “Dancing Samurai”. oO

P.S.4: Prometo que tentarei responder os comentários. Não pude fazer isso decentemente nas colunas anteriores, mas farei o possível essa semana. Então, comentem muito, acrescentem, critiquem, sugiram, corrijam. Afinal de c0ntas, é para isso que estamos aqui, certo? Beijos a todos e até mais! =***

 

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  1. por acaso qualquer pessoa ser vivo ou ate mesmo morto saberia onde eu poderia achar a visual novel de Fate/Stay Night traduzida ou no minimo o pacote de tradução pelo fato de eu ja ter o em inglês

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