Árvore de Ohara – Volume VI-1: Sailor Moon

Olá! Já faz algum tempo que não nos encontramos entre os corredores escuros e abarrotados da nossa Biblioteca. Por isso, o volume escolhido para hoje tem um gostinho de… nostalgia. O anime do qual vamos falar provavelmente marcou a história de vários de vocês. Digo por mim mesma, provavelmente esse foi o primeiro contato que tive com o universo anime, e sem isso, é possível que talvez eu não estivesse aqui escrevendo para vocês. Falamos de Bishoujo Senshi Sailor Moon, obra de Naoko Takeuchi lançada entre 1993 e 1997, e inicialmente exibida no Brasil pela eterna Rede Manchete entre 1996 e 1997. É uma série recheada de referências mitológicas, além de simbolismos relacionados ao zodíaco e ao esoterismo em geral.

Avisando, esta provavelmente será a primeira Árvore de Ohara que terá duas partes previamente planejadas. Trata-se de um universo imenso, cinco temporadas, milhares de referências fantásticas que merecem atenção… e não seria justo ignorar qualquer uma delas. Tentarei focar, nesta primeira parte, as primeiras temporadas, e na segunda parte abordarei as últimas.


O ponto de partida para a história são lendas gregas envolvendo a figura de Selene. Selene é a deusa da lua, irmã de Hélio, deus do sol. É daí que vem o nome original do Mar da Tranquilidade (um oceano de lava endurecida na superfície lunar, cujo nome em inglês é “Sea of Serenity”), e também o nome da Rainha e da Princesa Serenity (e, muito provavelmente, o que levou ao nome da protagonista na versão dublada, Serena). Em latim, Selene é “Luna”, o nome de um dos gatos. É interessante o fato de o nome de o outro gato, Artemis, também ter vindo dessa mesma lenda. Ártemis é a deusa da caça e da natureza, frequentemente confundida com a deusa da lua. Diz-se às vezes que ela possui três formas: a terrestre (a própria Ártemis), a celeste (Selene) e a do submundo. Trata-se de Hécate, a deusa maligna regente do lado escuro da lua.

Um outro aspecto interessante das lendas a respeito dela são as menções a Endymion (em Sailor Moon, ele é o príncipe da terra, apaixonado pela princesa da lua). De acordo com a lenda, ele era um pastor tão belo que, quando a deusa o viu, apaixonou-se imediatamente por ele. Para tê-lo para si, ela o enfeitiçou, transformando-o em imortal mas lançando-o num sono eterno. Toda noite, ela descia à terra para ficar com ele e cuidar dele. É uma condição dolorosa para ela, porém: tê-lo, mas ao mesmo tempo, não tê-lo de verdade. Uma recomendação que eu faço aqui é que vocês ouçam a música My Selene, da banda Sonata Arctica. É uma espécie de releitura dessa lenda, muito bonita e poética.

A Lua também é abordada do ponto de vista de lendas orientais. De acordo com algumas culturas asiáticas, é possível ver um coelho derrubando mochis (uma espécie de bolinho de arroz) (!), quando se olha para a lua cheia. O mochi é uma comida muito importante no Japão, e é tradicionalmente servido durante os festivais de ano novo. De acordo com a tradição Shinto, cada grão de arroz representa uma alma humana, então os mochis representam milhões de almas. Curiosamente, mochizuki é a palavra para “lua cheia”, em japonês, enquanto mochitsuki significa “derrubar mochis”. Aí temos um jogo de palavras, também. “Tsukino Usagi” pode ser lido como “Tsuki no Usagi”, literalmente “coelho da lua”. Essa era, por exemplo, a senha que Luna usava para se comunicar com sua central (“o coelho da lua derruba bolinhos de arroz” ou algo assim). Na mitologia chinesa, da qual essa lenda foi herdada e posteriormente modificada, menciona-se também que este coelho da lua prepara uma espécie de elixir da imortalidade.Há pequenas piadas feitas em relação a essa comparação, como o fato de Usagi querer ter um coelho, ser chamada por Mamoru de “cabeça-de-bolinho” ou odiar cenouras, por exemplo.

Os nomes das demais Sailors também são cheios de simbolismos. Mizuno Ami (Sailor Mercúrio) significa “beleza da água”; Hino Rei (Sailor Marte), “espírito de fogo”. Kino Makoto (Sailor Júpiter) pode ser traduzido como “força da madeira”. Aino Minako (Sailor Vênus), por sua vez, é algo como “uma bela criança num campo de amor”. O segundo nome de Meioh Setsuna (Sailor Plutão) é o primeiro caractere japonês para o nome do planeta, que também pode ser lido como Hades (sim, o deus do submundo). Kaioh Michiru (Sailor Netuno) pode ser separado em “deus do mar” (uma referência ao próprio Netuno), enquanto o primeiro nome dela significa algo como “se tornar completo”. Enquanto o primeiro nome de Tenoh Haruka (Sailor Urano) significa “estar longe ou distante”, seu sobrenome pode ser interpretado como “o rei do paraíso”. Por fim, Tomoe Hotaru (Sailor Saturno) significa “um vagalume que brota do solo” (!!). Além disso, Chiba Mamoru, por sua vez, significa algo como “aquele que protege a Terra”. É interessante perceber que, enquanto os nomes das “Inner Sailors” (referência ao fato de elas representarem os planetas do sistema solar interno) têm mais relação com seus elementos, os nomes das “Outer Sailors” estão mais próximos do que elas simbolizam.

Além dos nomes, é legal perceber que cada uma delas pertence ao signo regido pelo planeta que elas representam, e trazem características desse signo, também. Com isso, temos a canceriana Usagi, distraída mas muito companheira; a calma e intelectual Ami, do signo de Virgem; a ariana teimosa e muitas vezes rude que é Rei, a capricorniana Hotaru, tímida e reservada mas extremamente corajosa quando necessário (e, sim, ela só foi mencionada pelo fato de eu ser de capricórnio e achar a Hotaru a Sailor Senshi mais foda de todas) e por aí vai. Os símbolos e cetros de transformação delas correspondem, também, aos símbolos alquímicos de cada planeta, indicando elementos químicos. O crescente, por exemplo, é o símbolo da prata (um metal sempre associado à pureza e à espiritualidade); o símbolo do mercúrio representa, além do planeta, o metal em si, um dos materiais básicos da alquimia (juntamente com o enxofre); o símbolo de Marte representa o ferro, o de Vênus representa o cobre e por aí vai. A mesma lógica se aplica a Tuxedo Kamen, cujo símbolo é o símbolo da Terra.

Outras lendas, tanto ocidentais quanto orientais, também são mencionadas durante a série. Uma delas é a dos Três Presentes de Amaterasu. Reza a lenda que Amaterasu, a deusa japonesa do sol (e a única deidade feminina solar do mundo – nas demais mitologias, os deuses do sol sempre são entidades masculinas), ao mandar sua criança, Ninigi-no-Mikoto, à terra para retomá-la, deu a ele três presentes: uma jóia de jade (Yasaka-no-Magatama), um espelho (Yaata-no-Kagami, a própria alma de Amaterasu) e uma espada (Kusanagi-no-Tsurugi, capaz de destruir a grama de um campo inteiro com um movimento). Cada uma das Outer Sailors (exceto Sailor Saturno) possui um elemento que pode ser relacionado a um desses presentes (a jóia de Sailor Plutão, a espada de Sailor Urano, e o espelho de Sailor Netuno). Além disso, vários ataques delas, bem como traços da sua personalidade, refletem a natureza dos deuses gregos baseados nos quais seus planetas foram batizados (por exemplo, o ataque Aqua Rhapsody de Sailor Mercúrio forma uma lira feita de gelo. Isto se deve ao fato de que Hermes, ou Mercúrio na mitologia romana, além de ser o deus do comércio e da informação, também é o deus da música, e foi ele quem criou a primeira lira, a partir de um casco de tartaruga – que, por sua vez, é o símbolo asiático para o planeta Mercúrio). Quanto a personalidades, é fácil associar o temperamento explosivo e algumas vezes violento de Rei com Ares, ou Marte, deus da guerra. E mesmo as cores de suas roupas tem relação com esses mitos (na mitologia oriental, a cada planeta é atribuída uma cor, um animal, uma estação do ano, um ponto cardeal e um elemento da natureza). Por exemplo, as cores de Sailor Urano, azul e amarelo, são comumente associadas ao céu. As de Sailor Netuno, azul e verde, são associadas ao mar e por aí vai.

Um dos fatos intrigantes é a provável “mistura” de referências na construção das personagens Sailor Plutão e Sailor Saturno. Plutão é o nome romano de Hades, deus da morte e do submundo, enquanto Saturno, ou Cronos, é o titã responsável por controlar o tempo (embora as lendas da Itália pré-romana apontam que ele era uma divindade relacionada à agricultura, o que talvez tenha a ver com a tradução do nome de Hotaru). Porém, Setsuna é quem tem poder sobre o tempo, enquanto Hotaru possui os ataques mais devastadores e é comumente associada à morte em si. Fica a discussão se isso foi um erro de interpretação ou se a autora deu uma nova visão ao mito original.

Desta vez encerraremos por aqui. No próximo volume, falaremos um pouco mais dos inimigos, das Sailor Stars, e de outros elementos da série que não puderam ser abordados aqui, em parte por falta de tempo, em parte porque eu ainda não vi as últimas temporadas e, por isso, não tenho tanta segurança para falar sobre elas. A segunda parte pode demorar um pouco a sair, mas com certeza virá. Para a próxima Árvore de Ohara, porém, vocês podem esperar um pouco mais de saudosismo, mas provavelmente é um saudosismo muito mais disseminado do que o deste volume. Beijos a todos, comentem muito e até mais! ;D

P.S.1: estou terminando isso às pressas. Tenho prova em vinte minutos e não aguento mais estudar. Se eu vir mais UMA derivada na minha frente, entrarei em modo rage. =3=

P.S.2: a matéria ficou mais curta que o normal, reconheço isso. Essa semana foi beeeeeem corrida, então não pude desenvolver tanto (nem deu tempo de fazer um banner bonitinho, como nas outras semanas – tive que apelar pra mestre Google, mesmo >.<

 

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  1. O.O

    Nunca imaginei que tivesse TANTA referencia em Sailor Moon. Vivendo e aprendendo…

    Excelente matéria Drih, mal posso esperar pela segunda parte.

    E com relação a parte da Sailor Saturno e Sailor Plutão, acho que posso dar um entendimento meu…

    A arma da Sailor Saturno é uma foice, o mesmo tipo de arma criada por Gaia e dada a seu filho mais novo, Cronos, para que esse castrasse seu pai, não só a questão dele representar o tempo. E também tem o ponto da Hotaru “quebrar” seu próprio tempo, já que uma hora ela é adolescente, vira criança, volta a ser adolescente e por ai…

    Com relação a Sailor Plutão, faz sentido a questão dela ter a chave do tempo, se for analisar que, o deus Hades cuidava do Submundo (Hades), o Tártaro e o Campos Elysios, sendo o responsável por dizer quem entra ou quem sai de seus reinos, que tirando a viagem no tempo, é justamente o que a Sailor Plutão faz, escolher quem vai, quem fica…

    Mas como disse, isso é um entendimento meu, depois de ter visto a série, na Manchete junto com CDZ (\o/) e pode ser que a autora realmente tenha errado, mas acho dificil ela ter feito isso, já que anos depois, ela casou com o cara que pode parar seu mangá por anos a fio e ninguem fala nada. XD

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