Coluna da Drih

Árvore de Ohara – Volume III: Death Note

“EU SOU A JUSTIÇA! Sou o homem que salvará os oprimidos. E serei o Deus de um novo mundo, um mundo ideal! Aqueles que se opõem a Deus, estes, sim, são malignos! (Yagami Raito)”

É com esta citação marcante que iniciamos a nossa visita de hoje à Árvore de Ohara. Este volume pode ser um tanto polêmico, porque o anime/mangá que vai ser retratado aqui divide opiniões mesmo agora, oito anos depois do início de sua publicação. Estamos falando de Death Note, obra de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata que, mesmo hoje, ainda provoca discussões. Quem estava certo? Quem estava errado? Quem era a justiça? Quem se opunha a ela?

Claro que discutir isso não é o foco dessa coluna, e eu não tenho planos de tentar convencê-los das minhas opiniões sobre isso. A idéia aqui é apontar fatos inseridos ao longo da história, e tentar mostrar como elas são usadas para construir o roteiro. As referências, nesse caso, são em sua maioria artísticas, filosóficas e religiosas.

[Antes de continuar, um aviso: parte do que vai ser dito aqui é interpretação pessoal, e talvez até um pouco de especulação, de “procurar pêlo em ovo”. Se em algum momento errar, ou se vocês discordarem de mim, por favor, não hesitem em me corrigir ou expor outros pontos de vista nos comentários. E falaremos de assuntos delicados como conceitos religiosos, também. Todas as opiniões serão muito válidas e muito bem-vindas.]

“O humano que tiver seu nome escrito neste caderno morrerá” (Death Note: How to Use I)

A primeira, e mais visível, é o fato de que todo o enredo gira em torno da morte, como fato e entidade real. Shinigamis, os deuses da morte, são representações de uma figura presente em diversas culturas do mundo, a dos ceifadores ou deuses da morte. A verdadeira deusa da morte, de acordo com a tradição japonesa, é Izanami, esposa de Izanagi, deus criador. Inicialmente uma deusa de criação, ela morreu depois de dar à luz ao deus do fogo Hinokagutsuchi, e assim entrou no reino de escuridão eterna, Yomi-no-kumi (o submundo). Izanagi tentou resgatá-la, mas ao ver que sua aparência se tornou horrível e deformada, deu as costas a ela. Irada, Izanami jurou que iria tomar mil vidas humanas todos os dias, tornando-se assim uma deusa da morte.

Os shinigamis propriamente ditos, porém, não têm origem japonesa. Na verdade, sua origem é européia (os chamados “grim reapers”, intensamente explorados na cultura ocidental), e o conceito de shinigami foi “importado” durante a Era Meiji, sendo adotado e usado em diversas obras, como peças de teatro rakugo. Porém, não tem relação com nenhuma deidade Shinto e é raramente usada em folclore.

Apartir desse conceito, a morte é explorada de diversas formas ao longo da história. A princípio, a presença do número 4 em diversos momentos da série. Nas línguas chinesa, japonesa e coreana, as palavras para “quatro” e “morte”, apesar de escritas diferente, são pronunciadas de forma semelhante (“shi”). É por isso que muitas vezes eles preferem dizer “yon” a “shi”. Existem também alguns exemplos na cultura ocidental que relacionam o número 4 à morte (os quatro cavaleiros do Apocalipse, por exemplo). Em Death Note, as aparições são várias: 40 segundos entre o momento em que o nome é escrito e o momento da morte, 440 segundos para a pessoa escrever as circunstâncias em que ela ocorrerá e por aí vai… 108 (o número de capítulos do mangá) também tem um significado: no Budismo, esse número representa o número de tentações que uma pessoa enfrenta ao longo da vida. O 13 (número de volumes do mangá, o número do armazém onde se desenrola a “batalha final”, etc), além de ser um número classicamente associado ao azar, à morte e ao diabo (referências bíblicas e cabalísticas), representa o arcano da Morte no tarô.

“Humanos são tão interessantes!” (Ryuuku)

Outro exemplo bem óbvio é o simbolismo da maçã. A relação dela com o pecado original é mais do que óbvia (embora, notem, em nenhum momento na Bíblia foi realmente dito que a fruta da Árvore do Conhecimento era uma maçã – me corrijam se eu estiver errada). Mas acho que aí está outro ponto intrigante: a maçã, então, representa o fruto do conhecimento do bem e do mal. E o que temos em Death Note, senão um duelo de gênios em que o mais poderoso é o que sabe mais? E o que dizer do fato de que “shinigamis só comem maçãs”? Será que eles também buscam conhecimento? É uma forma de enxergar Ryuuku, por exemplo, que durante toda a história apenas observava a situação e se divertia com ela.

Além disso, maçãs também podem representar luxúria, felicidade e, claro, a própria morte (o exemplo vai parecer um pouco ridículo, mas é o que vemos, por exemplo, na história de Branca de Neve, em que a fruta, bela e tentadora, foi a causa da quase-morte dela). Na mitologia grega, a deusa Hera recebeu uma maçã como um presente de fertilidade pelo seu primeiro casamento com Zeus. E, na ideologia secular (ou seja, não-religiosa), elas agem como um símbolo para totalidade, como em “cosmo” ou “universo”, devido à sua forma quase esférica.

Outra idéia muito forte é o conceito de justiça, tantas vezes apresentado, reformulado e distorcido ao longo da série. É um conceito visto em várias culturas, sempre fortemente ligado à existência de leis (como o código de Hamurabi, na Babilônia, o primeiro código de leis escritas na história, ainda usado no mundo todo até hoje, depois de várias transformações e adaptações às mudanças dos tempos). O Antigo Testamento da Bíblia, escrito mais de um milênio depois, apresentou o primeiro conceito de moralidade, com os Dez Mandamentos (cerca de 450 a.C.). É bom enfatizar que “moralidade” e “lei” não são sinônimos (na época de Jesus, por exemplo, vários dos seus ensinamentos iam contra as idéias de justiça e moral vigentes – uma forma de tentar “corrigir” as distorções na lei). Esse é um dos conceitos mais claros em Death Note, como pode ser visto por algumas citações ao longo da série.

“Esse mundo está podre, e quem apodreceu junto com ele deve morrer!” (Yagami Raito)

A visão que Raito tinha de justiça, e de Deus enquanto “aquele que traz a justiça ao mundo”, era um tanto rígida. Quem não se aplicasse a esse conceito não era digno de estar no mundo (algo muito semelhante ao “olho por olho, dente por dente” do Tailão), e deveria ser punido. O caderno em si era apenas um meio de fazer isso eficientemente. Aliás, os conceitos de “Deus” e de “justiça” são praticamente inseparáveis, nessa história. Ao obter uma ferramenta que o permitisse trazer “justiça” ao mundo, Raito se sentiu no direito de se intitular “Deus do novo mundo”. Certo pela lei? Certo pela moralidade? Esses conceitos também são bem discutidos em Death Note, mas não é possível chegar a uma resposta.

“É o mínimo que posso fazer para me redimir dos meus pecados” (L Lawliet)

É possível dizer também que Kira, de certa forma, representou uma espécie de Messias, de alguém que veio ao mundo para salvar a humanidade, curar suas mazelas e trazer a paz. Sendo Kira o “messias” da história, L seria o seu oponente. O dualismo entre os dois se mostrou de diversas formas (algumas muito interessantes visualmente, como a oposição de cores no anime, por exemplo). O tempo todo, Kira e L (não apenas o L propriamente dito, mas seus “discípulos”, Near, Mello e, em menor escala, Matt) estiveram em lados opostos, num jogo de tensão constante. Mesmo seus conceitos de certo e errado são diferentes (sendo que L menciona que talvez Kira veja essa idéia de uma forma “infantil”). E é engraçado que, mesmo que Raito seja o “salvador destinado” da humanidade, quem age como tal acaba sendo o próprio L. Talvez a representação mais óbvia desse conceito seja a cena (presente apenas no anime) em que L lava os pés de Raito, numa referência ao momento em que Jesus lava os pés de Judas Iscariotes, seu traidor. Nessa cena ficou bem claro que L sabia que iria morrer em breve, e que Raito seria o seu assassino. Aí, entram as metáforas dos sinos (que representam um “chamamento” ao mundo espiritual, ou seja, um presságio de morte).

O anime possui outras citações desse tipo também, como na primeira abertura, “The World”. Uma das cenas mostra Naomi Misora com o corpo de Raye Penbar no colo, numa referência clara à Pietà, tema recorrente em várias obras de arte e eternizada por Michelangelo (Pietà é uma imagem que representa a Virgem Maria com Cristo morto nos braços, após a crucificação).  Outro exemplo, na mesma abertura, mostra Ryuukuu e Raito numa pose muito semelhante à “Criação de Adão”, também de Michelangelo (presente num afresco na Capela Sistina). A oposição entre vermelho e azul, as cruzes, as rosas (que representam o cálice no qual foi recolhido o sangue de Cristo, e que aparecem em “What’s up, People”, ora vermelhas, ora azuis), corvos… pequenos e intrigantes detalhes colocados nas aberturas e encerramentos.

“Fique atento, Deus está te vigiando.

Não desista de si mesmo ao se ver num beco escuro

Ainda que fale sozinho, Ele sempre o encontrará.

Ele sabe, portanto confesse a Ele seus pecados.

Confesse, mesmo que não conheça o rosto dele.

Mas que posso eu fazer se os portões do Céu estão fechados para mim?”

(Amane Misa)

É interessante perceber que a storyline de Death Note é similar à de Julius Caesar, peça de Shakespeare. Raito representaria Marcus Brutus, Misa poderia ser comparada com Cassius, L com Julius Caesar e Mello e Near com Marco Antônio e Octavius Caesar. A imagem do fantasma de Júlio César aparece para Brutus antes da batalha decisiva, da mesma forma que uma imagem de L volta para Raito depois do salto de tempo, num momento de reflexão sobre Mello e Near (claro, os motivos são diferentes. Brutus perseguia César como uma ameaça, e amava tanto a ele e a Roma que era capaz de matar por ambos).

Ainda há mais, mas é difícil ir além disso sem entrar no campo da especulação pura e simples, então vamos parar por aqui. Espero de coração que vocês tenham gostado. Deixem comentários, dêem suas opiniões, critiquem, corrijam, sugiram. Esse é um tema muito interessante e que pode proporcionar uma bela discussão. Beijos a todos, muito obrigada pela atenção e até mais!

“Um dia, mostrarei a você / Um mundo resplandecente” (Nightmare – The World)


P.S.: eu não quis dizer isso antes, mas infelizmente este é o último volume da Ávore de Ohara. Está sendo muito difícil para mim continuar com isso, graças a uma série de problemas de ordem externa (excesso de trabalho com a faculdade) e interna (dos quais não vou falar aqui, mas cujos responsáveis bem sabem do que se tratam – e eu espero que eles tenham a elegância de me dar explicações sobre o que está havendo). Passo o bastão para quem se interessar pela idéia. Não sei se continuarei com as reviews também, mas plo jeito que as coisas andam, nem isso será mais possível. De qualquer forma, apesar de ter durado pouco, foi uma experiência incrível escrever esta coluna. De coração, muito obrigada, beijos a todos, me desculpem por qualquer coisa e até mais! =***

E quem ler até aqui… RÁÁÁÁÁÁÁÁÁ! PEGADINHA DO MALANDRO!!!  8D (*vamos ver quem é bom o bastante pra sacar antes, haha xD*)

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Impressionante passei varias vezes pelos comentarios e vi pessoas falando do Fans “Modinha” Death Note Eh um Anime Recente Porem nem tanto ja passou da Moda sim a Muito tempo…. Não tem como dizer que eh coisa de Fan Modinha….. Aliais Logico Os inuteis que disserram isso antes disseram que Death Note é bom ou Algo do genero…. Pois apenas Estiveram centrados na Historia… Este Post não revelou nada da Filosofia Por traz do Anime….. E mtos so falam de topicos avulsos os quais axam que tem um grade sentido atravez deles ou de imagens apenas….. A questão eh Death… Read more »

lucas
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lucas

Parabéns por saber tanto de Death Note com certeza você demorou muito pra escrever esse comentário que poucas pessoas vão ler, muitas coisas que você escreveu realmente são verdadeiras mais outras não passam apenas da sua própria concepção, todas as pessoas (pelo menos a maioria) tem pontos de vista diferentes e com Death Note não é diferente acho que você devia parar de jogar farpas nas pessoas e guardar sua opinião para si mesmo, porque somente o autor sabe o que ele realmente quis passar e somente a opinião dele está 100% correta

Zezincarioca
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Zezincarioca

Achei muito boa e instrutiva essa materia, serviu muito no meu trabalho para o curso de bacharelado em animes/mangás, que meus amigos da univerdidade dizem que eu estou qua se me formando. Muito Obrigado.

kiihabo
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kiihabo

Amei essa materia !
Tenho os mangas do deathnote e ja havia perccebido certas coisas… mas nao isso tudo OO
Deathnote é um grande anime… mas ele acaba com a morte do L. Uma pena =/
Pena que nao tera mais esses artigos =/
bjs

Rhyron
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Rhyron

Death Note e bom Mais ja assisti uns 40 animes do nivel dele conserteza ta enteo os melhores bela coluna como se disse muita opnião pessoal ai na se discuti mais e sempre bom adquirir um pouco mais de informação.

Angelo
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Angelo

Curto mto Death Note é um dos melhores animes que já vi e axei essa matéria mto interessante bem legal parabens ai pessoal do afs continuem com materia interessantes e com os podcasts fodas que é o melhor do site

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