Review: Tsukihime (Game)

“—Um pesadelo frio, tão terrível.

Sim— Eu não percebi

Que hoje a noite a lua está— linda.” – Shiki Tohno

 

Tsukihime

As heroínas de Tsukihime: da esquerda para direita, Kohaku, Hisui, Ciel, Arcueid e Akiha

 

É quase que indiscutível a popularidade da empresa de jogos Type-Moon. Seja por causa da recente versão animada de Fate/Zero ou dos belíssimos filmes de Kara no Kyoukai, a empresa tem despertado o interesse em um público que vai muito além dos leitores de suas visual novels.

A empresa foi fundada pelo escritor Kinoku Nasu e o artista Takashi Takeuchi e, dentre seus jogos, pode-se destacar Tsukihime, Fate/Stay Night e o recente Mahou Tsukai no Yoru. Este review trata-se de Tsukihime, primeira visual novel da dupla, tendo sido lançada como uma obra doujinshi na Comiket de 2000. A visual novel é um ponto de partida interessante para o leitor tenha vontade de conhecer o universo do Kinoku Nasu, apelidado carinhosamente de “Nasuverse”, que também engloba as obras de Fate e KnK.

Enredo de Tsukihime

O enredo começa com o pequeno Shiki Tohno após acordar de um coma. É dito que ele sofreu um acidente de carro, onde pedaços de vidro perfuraram o seu peito, e como sequela deste, além de uma enorme cicatriz, ele ganhou a estranha habilidade de ver linhas e rabiscos cobrindo tudo ao seu redor. Os médicos sugerem que ele havia sofrido dano cerebral e que sua vista havia sido prejudicada e isto explicaria as linhas que o menino enxergava. Perto da insanidade, Shiki foge do hospital e – coincidentemente ou não – encontra uma misteriosa mulher chamada Aoko Aozaki que o impede de trilhar esse caminho. Aoko é uma maga autoproclamada, e ao descobrir sobre a habilidade de Shiki, explica sobre a origem e o que é o seu poder. Basicamente, há linhas que costuram o mundo todo tal como pontos cirúrgicos e ele é capaz de enxerga-las. Toda vez que ele as percorre com uma faca, ele destrói a origem do objeto em questão. Em suma, ele é capaz de ver a morte de tudo, sejam seres-vivos ou não. Oito anos depois, após viver com uma família adotiva por motivos que nem ele entende, ele é chamado de volta para a família Tohno onde volta a viver com Akiha Tohno, sua irmã e duas empregadas da mansão. No dia seguinte, após encontrar uma mulher, sente um súbito instinto assassino e a fatia em dezessete pedaços. Mal ele sabia que tinha acabado de “matar” Arcueid Brunestud, uma das criaturas mais poderosas do planeta. Arcueid é uma True Ancestor, um tipo de espírito imortal criado pela natureza para manter o equilíbrio do planeta. Junto a esse evento, ocorre uma série de assassinatos na cidade onde as vítimas são encontradas sem sangue. Estes fatos estariam correlacionados? É com essa e muitas outras perguntas, que começa um elaborado enredo com mistérios, assassinatos, vampiros, traições, romances e insanidade.

Tsukihime

Tsukihime

Anime (que não existe)

Tsukihime não deve ser um nome desconhecido para muitos. Pois, para a infelicidade geral, ganhou uma adaptação animada pelo estúdio J.C. Staff em 2003, tendo sido exibido no Brasil no extinto Animax, inclusive. Se por acaso você já se deu o trabalho de olhar alguns forums especializados no assunto por aí, verá que há quase que um consenso sobre a não existência de uma adaptação. Ela ficou tão ruim, distorcida e porca, que quase nenhum fã da obra lembra-se que ela existe. Para tentar elucidar o quão ruim ficou, imagine pegar uma história que tinha quase o tamanho de “Fate Night” e colocá-la em uma série de 12 episódios. Agora desconsideremos um episódio por ser um filler engraçadinho e temos quase que 30 horas de leitura espremidas em um anime de 11 episódios. Nem entrei no mérito de que só uma das rotas foi adaptada, o que deixa buracos gritantes para a plena compreensão do enredo e nem que, aparentemente, quem escreveu o script não leu a história original. Não há explicações, os personagens são meras caricaturas dos originais, não há fidelidade com a obra, tudo é jogado as pressas e espera-se que o desavisado (ou corajoso) espectador entenda a história. Quem leu a novel de Fate, sabe como a adaptação do anime é ruim. Já quem leu a novel de Tsukihime, está esperando (ou não) uma adaptação até hoje.

Jogabilidade

Tsukihime trata-se de uma Visual Novel, ou seja, sua jogabilidade é extremamente peculiar e típica do gênero. Para os que não conhecem esse tipo de mídia, uma Visual Novel é basicamente uma história romanceada com sons e imagens. E por que chamam isso de jogo? Provavelmente pela tradição e origem nos antigos “Adventure Games” de pc. Hoje em dia, em sua grande maioria, a jogabilidade das novels envolvem escolhas que são feitas em determinados pontos da história e que podem mudar o seu rumo. Já se perguntou o que aconteceria se você pudesse influenciar o destino do protagonista de um Romance ou escolher até com ele vai ficar no final? Essa é mais ou menos a proposta de um “jogo” desse gênero. Também por tradição, a maioria deles contém conteúdos para adultos – leia-se pornografia – e, por isso, são chamados erroneamente de Eroges e aqui cabe um parêntese. Nem toda visual novel é eroge e nem todo eroge é uma visual novel. Eroge é basicamente todo jogo que tiver conteúdo erótico, o que não é verdade para muitas visual novels. Tsukihime contém esse tipo de elemento e isso merecerá uma análise destacada.

Tsukihime

Narrativa

A obra é dividida em cinco arcos e o acesso a cada uma dessas histórias é dado pelas inúmeras escolhas que são feitas. Cada rota possui uma heroína e o enredo gira em torno dela. Temos a poderosa Arcueid, a misteriosa Ciel-senpai, a clássica irmã tsundere e duas simpáticas empregadas. Tudo seria lindo e bonitinho se fosse exatamente como falei, mas, em Tsukihime, nem tudo é o que parece à primeira vista. Todas as personagens guardam segredos e mistérios e, de alguma forma, estão relacionadas com os assassinatos em série que tem ocorrido em Misaki, cidade em que é ambientado o enredo. As rotas da Arcueid e Ciel são conhecidas como “Near Moon” e mostram como o Shiki Tohno se envolve com os assassinatos e vampiros. E as três últimas rotas, conhecidas como “Far Moon” mostram a tentativa do protagonista de lidar com o seu próprio passado e os mistérios acerca da família Tohno. A narrativa do Kinoku Nasu é bem interessante. Ele alterna momentos de “slice-of-life” com densas narrativas introspectivas.

Os personagens são um destaque a parte da obra e onde ela mais brilha. Todas as heroínas são carismáticas e chamam a atenção. O Shiki Tohno seria um protagonista genérico se não fossem pelos seus olhos e o seu passado que são de extrema importância para a história. O seu desenvolvimento dependerá da rota em que estiver, mas sempre será muito bem trabalhado. As heroínas, como se pode esperar, ganham o desenvolvimento em suas respectivas rotas e, mesmo as que você não esperava nada, irão te surpreender. Personagens que pareciam não ter função ganham destaque em outras rotas como é o caso da querida e amada Satsuki Yumizuka cujo papel é fundamental nas rotas do “Far Moon”. As maids, que muitos podem pensar que estão ali só pelo fanservice, protagonizam histórias densas e dramáticas. A irmã, que também poderia estar lá só pelo fetiche, tem a rota que considero a melhor, devido à intensa carga dramática e a revelação de muitos mistérios sobre o passado do Shiki. Cada personagem – com exceção do amigo de infância do protagonista que está lá só para fazer graça – tem o seu momento e te convencerá na hora certa. Para fins de compreensão do enredo, é recomendado que fosse jogada na seguinte ordem: Arcueid, Ciel, Akiha, Hisui, Kohaku. Cada uma das rotas possui dois finais, com exceção de uma heroína. Além dos finais considerados verdadeiros, há uma série de “bad endings” que são desencadeados caso faça alguma escolha errada. Algumas escolhas são extremamente capciosas e o que parecia ser a opção sensata, acaba caindo em um “bad ending”. Há quem prefira não perder tempo e usar um tutorial e há quem goste de se aventurar e ver o que acontece. Caso seja do tipo aventureiro, é prudente salvar o jogo sempre que estiver diante de uma escolha difícil. A cada rota, um elemento novo é acrescentado como peças em um quebra-cabeça. A história só é fechada com a junção de todas as peças. Não adianta jogar uma rota e achar que conhece a obra, pois a história é um todo formado pelos vários caminhos disponíveis.

TsukihimeTsukihime
Aspectos Técnicos

Sendo uma obra doujinshi e relativamente antiga, não se pode esperar qualidade técnica e isso ainda é algo que impede muitos de lerem. Os cenários são basicamente fotos com alguns filtros e sobre ele são jogados os personagens. Entretanto, nem tudo é desastroso. Há uma coletânea de imagens conhecidas como “CGs” que foram inteiramente desenhadas e são usadas em momentos-chave da trama. Apesar das CGs serem bonitas, considerando a época e a verba utilizada em sua produção, não da para compará-las com a arte das visual novels modernas ou mesmo de Fate/Night, seu irmão mais velho e comercial. A trilha sonora contém somente 10 faixas que são repetidas exaustivamente durante toda a obra. São composições simples, mas belas e que cumprem o papel de ambientar o enredo, com exceção da anticlimática música de encerramento.

Tsukihime

Eroge

Como eu disse anteriormente, Tsukihime contém “h-scenes”, ou seja, cenas com conteúdo erótico e, portanto, não deve ser lida por menores de 18 anos. Cada rota contém duas cenas deste tipo, o que é alvo de muitas reclamações dos fãs, principalmente pelo estilo único em que elas são escritas. Essas cenas ou são extremamente perturbadoras e são usadas como ferramenta de narrativa para chocar o leitor ou são extremamente cômicas devido aos adjetivos e descrições peculiares que o Nasu usa para descrever o coito. Se você – meu querido e estimado leitor – quer ver pornografia de qualidade, passe longe disso aqui que o objetivo da obra é outro. Mesmo que você goste de coisas perturbadoras, você terá que ler umas 10 horas para chegar a uma cena de no máximo 10 minutos. Entende o que eu quero dizer? Tsukihime não foi feita para quem quer fappear. Um dos patchs de tradução do grupo Mirror-Moon contém a opção de retirar as h-scenes e é recomendado pra quem se sente ofendido com esse tipo de conteúdo.

Considerações Finais de Tsukihime

Tsukihime, em minha opinião, é a obra-prima da Type-Moon e deveria ser lido por qualquer pessoa que gostou do tom sombrio de Fate/Zero ou de Kara no Kyoukai ou até mesmo alguém que goste de fantasia aliado a um bom suspense. Talvez você esteja pensando que não valha a pena jogar uma novel tão antiga e feia, mas saiba que poucas novels são tão boas quanto.

É uma literatura um pouco densa, com personagens interessantes e muitos, muitos plot twists. Infelizmente, ainda é necessário recorrer ao Inglês para poder jogar, mas, recentemente, um grupo começou a traduzi-la para o Português e o projeto tem andado rápido. Caso queiram acompanhar o trabalho do grupo, o site é: http://www.unwsub.blogspot.com.br/. E sim – além de ser quem vos escreve – sou um dos fundadores do projeto. Caso tenha interesse em participar de alguma forma, mande-me um email. E não se esqueça de ler Tsukihime.

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Sobre Saito

Saito
Estudante de Economia, analista de mídia Otaku, fã incondicional de Animes, Mangás, Visual Novels e Light Novels. Hater de Shounens de porrada nas horas vagas. Quem tiver myanimelist, fique a vontade para me adicionar e mandar scraps: http://myanimelist.net/profile/ricardo-saito

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  1. eu tenho ele traduzido em espanhol mas não tinha jogado por causa da primeira cena de sangue, mas agora que soube a historia fiquei bem interessado
    Otimo post

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